(Mt 18,15-20)

A destruição do templo de Jerusalém no ano 70 provocou uma profunda crise no povo judeu. O templo era a “casa de Deus”. Onde ir agora?

Os rabinos reagiram buscando a Deus nas reuniões que faziam para estudar a Lei. O célebre Rabino Ananias, morto pelo ano 135, dizia: “Onde dois se reúnem para estudar as palavras da Lei, a presença de Deus (Shekiná) está com eles”.

Mateus lembra aos leitores as palavras que ele atribui a Jesus: “Onde dois ou três estiverem reunidos, ali eu estou”.

Não se trata de uma reunião qualquer que se faz por costume, por disciplina ou por submissão a um preceito, mas atraídos por Ele, animados por seu Espírito. Jesus é a razão, a fonte, o ânimo, a vida desse encontro. Ali, Jesus faz-se presente.

Não é nenhum segredo que a reunião dominical dos cristãos está em crise profunda. Para muitos cristãos a missa lhes é insuportável.

Como é possível que a reunião dominical se vá perdendo como se não acontecesse nada? Não é a eucaristia o centro do cristianismo?

As primeiras gerações cristãs não se preocupavam muito com o número. Em fins do século I eram apenas uns vinte mil. O quarto Evangelho de João exorta seus leitores a “permanecer Nele”.

Esta também hoje nossa primeira tarefa, ainda que sejam poucos, ainda que sejamos dois ou três.

Reunir-se no nome de Jesus é criar um espaço para viver a vida  inteira em torno Dele e a partir do seu horizonte. Um espaço espiritual bem definido não por doutrinas, costumes ou práticas, mas pelo Espírito de Jesus, que nos faz viver como Ele viveu.

O centro deste “espaço de Jesus” é ocupado pela narração do Evangelho. É a experiência essencial de toda comunidade cristã: “fazer a memória de Jesus”, recordar suas palavras, acolhê-las com fé e atualizá-las com alegria.

Neste espaço criado em seu nome, vamos caminhando, não sem fraquezas e pecado, para a verdade do evangelho, descobrindo junto o núcleo essencial de nossa fé, e recuperando nossa identidade cristã, no meio de uma Igreja às vezes debilitada pela rotina e tão paralisada pelos medos.

Nossa primeira preocupação deve ser cuidar, consolidar e aprofundar em nossas comunidades e paróquias, este espaço dominado por Jesus. A renovação da Igreja começa sempre no coração de dois ou três que se reúnem no nome de Jesus.

O rosto concreto da Igreja é quase sempre sua própria paróquia: esse grupo de pessoas amigas que se reúnem cada domingo para celebrar a Eucaristia; esse lugar de encontro onde celebram a fé e rezam todos juntos a Deus; essa comunidade onde são batizados os filhos ou são despedidos os entes queridos até o encontro final na outra vida.

Para quem vive na Igreja buscando nela a comunidade de Jesus sempre há dois aspectos:

  1. Por um lado, a Igreja é estímulo e alegria, pois experimentamos a lembrança de Jesus, escutamos sua mensagem, rastreamos seu espírito e nos alimentamos nossa fé no Deus vivo.
  2. Por outro lado, a Igreja faz sofrer, porque observamos as incoerências e rotina; com frequência é grande demais a distância entre o que se prega e o que se vive; falta vitalidade evangélica; em muitas coisas foi-se perdendo o exemplo de Jesus. Esta é a maior tragédia da Igreja.

Quando falta o espírito de Jesus corre-se o risco de se desvirtuar por nossa mediocridade. Precisamos retomar o tradicional “exame de consciência” que nos ajudará a trazer um pouco de luz, que talvez, deixamos de lado achando que é algo do passado.

Nós cristãos hoje, precisamos escutar mais do que nunca o apelo de Jesus, a corrigirmo-nos mutuamente e sermos melhores. Jesus nos convida a agir com paciência e sem precipitação aproximando-nos de maneira pessoal e amistosa de quem está agindo de maneira equivocada.

É bom refletir!

 

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